23.4.13

Onésio e Dolores

Embaralhada pelo Alzheimer, Dolores corrompia as lembranças a cada nascer do sol. Conservou poucas memórias. Essas, de tão reais, revisitava logo ao abrir os olhos. E sorria sempre ao ver Onésio, aquele jovem rapaz da cidade, chegar a cavalo, mais nítido que qualquer reminiscência de 73 anos. E o moço, cortês, não hesitava em retribuir o gesto.

Companheiro diligente, Onésio jamais saía da sela. Tudo pelo bom sorriso de Dolores. Assim, visitava a roça dezenas de vezes por dia e outro punhado à noite. Quando a lua acendia, Dolores pensava naquele homem. Sumira sem ela perceber. Dos rastros e ciumeiras, só mesmo as lembranças. Parada, voltava a enxergá-lo. Sorria.

Conhecia o amado, não pretendia vê-lo enfastiado. Por isso, todas as noites, se revoltava pela primeira vez com o velho corcunda que vinha deitar-se a seu lado. Onésio vai voltar, te matar e me levar junto, anunciava. O senhor saía sorrindo para o sofá, velava de lá a alienação alheia.

Até o momento em que o jovem Onésio realmente voltou. Buscou Dolores pela mão e ela se foi, feliz. O velho ruiu na cama pela primeira vez em tantos anos. Deixou-a somente ao notar que uma jovem de vestido de flanela listrada o convidava para acompanhá-la. Que belo sorriso, pensou.