Com a presença de Pedro Malan, apontado por pesquisa Datafolha o ministro mais popular da década de 90, a Confederação Brasileira de Futebol acaba de oficializar a unificação dos mandatos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Com o ato, a Era FHC e a Era Lula passam a ser reconhecidas como Era Plano Real, que passou a vigorar em 1995. A CBF anunciou, também, que entre abril e maio do próximo ano será realizado um plano de estudos para viabilizar a inserção do governo Dilma Rousseff na Era Plano Real. "Ainda é cedo para falar disso, convém deixar o anúncio para meu aniversário de 95 anos", explicou o niemeyer João Havelange.
O grupo que pedia a equiparação dos dois últimos governos foi liderado por José Serra, Sérgio Guerra, Geraldo Alckmin, Aloysio Nunes e Odir Cunha. Serra mostrou-se aliviado com a conquista: "É uma forma de mostrar como foi realizado o continuísmo. Durante toda a campanha, bati na tecla da continuidade, de manter todas as políticas do governo atual". Satisfeito, declarou-se "especialmente honrado por ter feito parte do governo Lula, agora de forma oficial", e deixou o auditório da CBF em uma viatura do Corpo de Bombeiros ao ser atingido por uma chuva de papel.
O PMDB, que havia sido contrário à unificação dos governos, também comemorou. "Mostra como nossa presença foi intensa nos últimos 16 anos da política nacional", limitou-se a dizer Michel Temer. Ao ser questionado sobre Itamar Franco, o vice-presidente eleito tergiversou. A cúpula petista mostrou-se revoltada com a decisão. Para José Dirceu, "o Brasil ainda pagará caro por uma canetada como essas". Em discurso emocionado, o presidente Lula disse que "nunca antes na história deste país um governo foi tão perseguido e maltratado como o nosso".
A reportagem não conseguiu contato com FHC, que está nos Estados Unidos para um ciclo de palestras. Após a decisão, herdeiros de Ranieri Mazzilli, João Goulart e Jânio Quadros declararam que também tentarão a unificação. "Por que nossas famílias não possuem uma Era própria?", desabafou o comentarista da Sportv Raul Quadros durante a transmissão da cerimônia.
22.12.10
1.5.10
Parolaccie
Abnegação, degringolar, posologia, imbatível, tecla, atualização, fotografia, exame, medodologia, melhor, observar, ricota, grampeador, saca-rolhas, boletim, segmento, irmandade, vulcão, óculos, carregador, papo, barreira, especial, inexistente, Magnopyrol, binóculo, suprassumo.
Texto baseado nos ideais de não-linearidade pregados no blog do Mateus.
Texto baseado nos ideais de não-linearidade pregados no blog do Mateus.
10.2.10
Leandro & Leonardo ou Radiohead?
Traduzir músicas é uma coisa complicada. Nem sempre é possível traduzir os sentimentos de uma forma que cabe em outro idioma. A nossa saudade, por exemplo, não tem similar em qualquer outra língua. Da mesma forma que tantas construções idiomáticas nunca encontrarão semelhantes no português. Ainda assim, resolvi trabalhar duas belas letras, provavelmente nunca antes comparadas: Não Aprendi Dizer Adeus (Leandro & Leonardo) e All I Need (Radiohead). Com um ritmo sertanejo, a All I Need brasileira cairia bem para qualquer nova dupla universitária, quem sabe até um César Menotti & Fabiano. Com uma baladinha legal e uma produção bacana, a Não Aprendi Dizer Adeus anglófona poderia, pelo menos, ir para a trilha internacional de alguma novela daqui. Afinal, fica sempre aquela pergunta: as pessoas sabem o que ouvem e o que cantam?
I didn't learn to say goodbye
Leander & Leonard
I didn't learn to say goodbye
And I don't know if I'll get used
Looking well in your eyes
I know that'll be on mine
The mark of this look
I have nothing to say
Only silence will speak for me
But I can keep all my pain
And despite all the my love
Everything will be better
I didn't learn to say goodbye
But I have to accept that passions
Just come and go like summer birds
If you have to let me go
Hope you are happy then
I didn't learn to say goodbye
But I have to let you go
Without tears in my eyes
Your goodbye always hurts me
The winter will pass and clears my scar
Tudo o que preciso
Cabeça de Rádio
Sou o ato seguinte esperando nas asas
Sou um animal preso em seu carro quente
Sou todos os dias que você escolhe ignorar
Você é tudo o que preciso
Você é tudo o que preciso
Estou no meio da sua foto
Deitado no gramado
Sou uma mariposa que só quer dividir a luz
Sou só um inseto tentando sair da noite
Só fico com você porque não existe nenhuma outra
Você é tudo o que preciso
Você é tudo o que preciso
Estou no meio da sua foto
Deitado no gramado
Tá tudo errado
Tá tudo certo
Tá tudo errado
Tá tudo certo
Tá tudo certo
Tá tudo certo
I didn't learn to say goodbye
Leander & Leonard
I didn't learn to say goodbye
And I don't know if I'll get used
Looking well in your eyes
I know that'll be on mine
The mark of this look
I have nothing to say
Only silence will speak for me
But I can keep all my pain
And despite all the my love
Everything will be better
I didn't learn to say goodbye
But I have to accept that passions
Just come and go like summer birds
If you have to let me go
Hope you are happy then
I didn't learn to say goodbye
But I have to let you go
Without tears in my eyes
Your goodbye always hurts me
The winter will pass and clears my scar
Tudo o que preciso
Cabeça de Rádio
Sou o ato seguinte esperando nas asas
Sou um animal preso em seu carro quente
Sou todos os dias que você escolhe ignorar
Você é tudo o que preciso
Você é tudo o que preciso
Estou no meio da sua foto
Deitado no gramado
Sou uma mariposa que só quer dividir a luz
Sou só um inseto tentando sair da noite
Só fico com você porque não existe nenhuma outra
Você é tudo o que preciso
Você é tudo o que preciso
Estou no meio da sua foto
Deitado no gramado
Tá tudo errado
Tá tudo certo
Tá tudo errado
Tá tudo certo
Tá tudo certo
Tá tudo certo
13.12.09
Jenny Gump, por Kerouac
Conto para a disciplina Oficina de Interpretação: baseada no estilo de Jack Kerouac, Jenny narra parte da história do filme Forrest Gump (1994) - do qual é personagem, pros desavisados.
1
A discoteca estava lotada tocando um dos hits daquele momento do qual nunca vou me lembrar. A luz vermelha, roxa, rosa, lilás, púrpura. Todos conversando animados, ou assim pareciam estar: gritando que só, buscando ser ouvidos mais do que a própria e a próxima música, todos bebendo; e todos conversando; e todos dançando; e todos flertando; e todos já se paquerando; e todos traçando planos. Minha mesa também estava repleta, seis pessoas numa daquelas mesas que tudo o que você tem é um globo de luz azul para iluminar algo branco é algo fantástico ou pelo menos era o que eu pensava naquela hora enquanto gargalhava tanto com aqueles completos desconhecidos que às vezes me pareciam assim tão comuns pelos seus sorrisos mil. Todos tão educados, me deixando cheirar cocaína ali mesmo, enquanto tagarelavam sobre algum assunto que a música abafava naquele lugar abafado.
Cocaína é uma coisa interessante e naquela hora eu pensei em fazer algo inovador, algo que me permitisse, finalmente, esquecer de todos os meus problemas e me concentrar apenas nas minhas soluções: a rua. Não a rua em si, mas o fato de cair na rua do alto de onde quer que eu estivesse, quão alto eu seria capaz de chegar ainda hoje? Mais tarde no apartamento com aquele mexicano estranho, toda a ideia parecia simplesmente genial quando o efeito todo resolveu passar e me deixar sozinha. Que situação horrenda. Meus olhos pareciam... Não sei o que pareciam, nunca consegui pensar no que pareciam, mas era alguma coisa nojenta, nojenta e preta. Era a hora. Havia uma varanda e a hora era agora, perfeito. Até uma cadeirinha pra eu subir e poder pular mais à vontade. Quantos carros lá embaixo, não deu pra contar. Quando eu começava, eles passavam, eu só via borrões, ficava com medo e tentava me concentrar no que tinha de fazer, mas ah, meu Deus, como era longe o lugar pra onde eu ia, e talvez fosse ainda mais longe que aquele asfalto maldito com mais uns carros passando em alta velocidade por aquele cruzamento perigoso. Quantos andares daria dali? Era mais alto que o prédio da frente. O prédio da frente tinha uns trinta, uns quarenta, tinha uns oitenta fácil, fácil. Era longe e ia doer, por Deus. Maldito salto alto que dói em meu pé, mas lá doeria mais. E os carros continuam, que agonia, mais dois passando, brilhando quase que nem a minha blusa... Deus, quase escorreguei. Não quero morrer. Não agora. Não, não, não, não, tudo errado, tudo. Não tá na hora, olha a lua. Não, não, vou vomitar. Não, não, não, não.
2
E então, eu estava lá. A vida é como uma caixa de chocolates: você nunca sabe o que vai encontrar. Mas quis e realmente encontrei Forrest naquela linda manhã enquanto ele cortava a grama já tão verdinha da casa do Gump. Tudo era branco e verde naquele dia, tudo estava lindo e talvez ele tenha se chocado, porque desligou o carrinho vermelho e veio me ver com um olhar intrigante e luvas nas mãos, apressou o passo e só foi interceptado num – Oi, Forrest – enquanto Forrest não sabia o que dizer, mas bastou um – Oi, Jenny – para fechar toda a situação. Eu estava feliz como não havia estado há muitos anos e corri para abraçá-lo. E estava cansada, Deus como estava cansada. Dormi durante um dia quase inteiro, dormi e dormi como se não tivesse dormido por anos e anos. Talvez por não ter para onde ir, mas era bom estar ali. Todo dia passeávamos pela região e Forrest falava sem parar sobre pingue-pongue; e sobre barcos de camarões; e sobre sua mãe que viajava para o céu; e eu preferia ficar calada e só ouvi-lo. A não ser quando passamos em frente a minha casa, e eu queria atirar lá minha alma, mas só tinha dois sapatos e algumas pedras e isso só seria o suficiente para quebrar a janela, devastante. Eu queria destruir tudo aquilo, mas vi que às vezes a vida não te dá pedras suficientes. Forrest estava do meu lado. Mas não deveria estar, eu queria estar sozinha e destruir toda aquela casa, eu tinha de fazer isso, mas levantar era difícil e eu só queria voltar para casa. A minha casa, não esta casa.
Não acho que Forrest se importava do motivo, mas eu estava de volta. Eu também não entendia o motivo, mas era tudo muito novo, apesar de antigo. Forrest devia pensar que era tudo como nos velhos tempos, que éramos como pão e manteiga outra vez, e todo dia ele colhia novas flores, e bonitas, para colocar no meu quarto. Ah, Forrest, pra ele eu dei um Nike, desses especiais para correr. E ensinei Forrest a dançar na medida do possível, e ali talvez até fôssemos como uma família, eu e Forrest, a época mais feliz da minha vida.
O 4 de julho foi algo estranho. Éramos como um família, eu e Forrest, e então ele me pediu em casamento enquanto eu ia para a cama. Ele parado perto da porta da sala, com o tênis ainda novo em folha e aquela cara que só Forrest era capaz de fazer. Ele daria um bom marido, é claro. – Mas você não quer se casar comigo. – Eu poderia garantir que era ele quem não queria se casar comigo. – Por que você não me ama, Jenny? Eu não sou um homem inteligente, mas eu sei o que é o amor. – Eu sabia daquilo tudo, mas o amor não era mais uma questão de amar e ser feliz. Eu amava, era feliz, tinha percebido. Mas amar não bastava em alguns casos e tudo o que eu queria era sumir daquelas escadas e não ver Forrest se humilhar por alguém que não lhe valia a pena, não importasse o que ele iria me dizer, não importasse o que eu iria dizer a ele. Forrest foi para a porta e eu fui para as escadas, mas como a vida podia ser tão complicada se há algumas horas eu era simplesmente tão feliz? Acabei aquela noite chuvosa no quarto de Forrest: – Forrest, eu te amo, sim. – Nos beijamos ternamente e eu mesma tirei minha bata. Forrest não sabia bem o que fazer, mas, Deus, também eu não sabia o que fazer e acho que queria fazê-lo, mas no fundo... No fundo valeu a pena, pude ver vários anos depois.
Mas no raso, de manhã bem cedo um táxi me esperava, numa manhã tão bela quanto aquela do reencontro. O moço de bigode me lia pelas passadas: – Para onde você está fugindo? – Mas eu não estava fugindo, não do modo como ele pensaria, porque eu fugia um pouco de Forrest e eu fugia de mim.
3
O tênis foi bem útil para Forrest porque ele tinha muito no que pensar, penso eu. Descobri quando vi na tevê que um jardineiro de Greenbow, Alabama, corria há mais de dois anos atravessando os Estados Unidos sem dar motivo algum, e cruzava pela quarta vez o rio Mississipi, e ah, Forrest, eu não poderia acreditar. Só corra, Forrest, corra.
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A discoteca estava lotada tocando um dos hits daquele momento do qual nunca vou me lembrar. A luz vermelha, roxa, rosa, lilás, púrpura. Todos conversando animados, ou assim pareciam estar: gritando que só, buscando ser ouvidos mais do que a própria e a próxima música, todos bebendo; e todos conversando; e todos dançando; e todos flertando; e todos já se paquerando; e todos traçando planos. Minha mesa também estava repleta, seis pessoas numa daquelas mesas que tudo o que você tem é um globo de luz azul para iluminar algo branco é algo fantástico ou pelo menos era o que eu pensava naquela hora enquanto gargalhava tanto com aqueles completos desconhecidos que às vezes me pareciam assim tão comuns pelos seus sorrisos mil. Todos tão educados, me deixando cheirar cocaína ali mesmo, enquanto tagarelavam sobre algum assunto que a música abafava naquele lugar abafado.
Cocaína é uma coisa interessante e naquela hora eu pensei em fazer algo inovador, algo que me permitisse, finalmente, esquecer de todos os meus problemas e me concentrar apenas nas minhas soluções: a rua. Não a rua em si, mas o fato de cair na rua do alto de onde quer que eu estivesse, quão alto eu seria capaz de chegar ainda hoje? Mais tarde no apartamento com aquele mexicano estranho, toda a ideia parecia simplesmente genial quando o efeito todo resolveu passar e me deixar sozinha. Que situação horrenda. Meus olhos pareciam... Não sei o que pareciam, nunca consegui pensar no que pareciam, mas era alguma coisa nojenta, nojenta e preta. Era a hora. Havia uma varanda e a hora era agora, perfeito. Até uma cadeirinha pra eu subir e poder pular mais à vontade. Quantos carros lá embaixo, não deu pra contar. Quando eu começava, eles passavam, eu só via borrões, ficava com medo e tentava me concentrar no que tinha de fazer, mas ah, meu Deus, como era longe o lugar pra onde eu ia, e talvez fosse ainda mais longe que aquele asfalto maldito com mais uns carros passando em alta velocidade por aquele cruzamento perigoso. Quantos andares daria dali? Era mais alto que o prédio da frente. O prédio da frente tinha uns trinta, uns quarenta, tinha uns oitenta fácil, fácil. Era longe e ia doer, por Deus. Maldito salto alto que dói em meu pé, mas lá doeria mais. E os carros continuam, que agonia, mais dois passando, brilhando quase que nem a minha blusa... Deus, quase escorreguei. Não quero morrer. Não agora. Não, não, não, não, tudo errado, tudo. Não tá na hora, olha a lua. Não, não, vou vomitar. Não, não, não, não.
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E então, eu estava lá. A vida é como uma caixa de chocolates: você nunca sabe o que vai encontrar. Mas quis e realmente encontrei Forrest naquela linda manhã enquanto ele cortava a grama já tão verdinha da casa do Gump. Tudo era branco e verde naquele dia, tudo estava lindo e talvez ele tenha se chocado, porque desligou o carrinho vermelho e veio me ver com um olhar intrigante e luvas nas mãos, apressou o passo e só foi interceptado num – Oi, Forrest – enquanto Forrest não sabia o que dizer, mas bastou um – Oi, Jenny – para fechar toda a situação. Eu estava feliz como não havia estado há muitos anos e corri para abraçá-lo. E estava cansada, Deus como estava cansada. Dormi durante um dia quase inteiro, dormi e dormi como se não tivesse dormido por anos e anos. Talvez por não ter para onde ir, mas era bom estar ali. Todo dia passeávamos pela região e Forrest falava sem parar sobre pingue-pongue; e sobre barcos de camarões; e sobre sua mãe que viajava para o céu; e eu preferia ficar calada e só ouvi-lo. A não ser quando passamos em frente a minha casa, e eu queria atirar lá minha alma, mas só tinha dois sapatos e algumas pedras e isso só seria o suficiente para quebrar a janela, devastante. Eu queria destruir tudo aquilo, mas vi que às vezes a vida não te dá pedras suficientes. Forrest estava do meu lado. Mas não deveria estar, eu queria estar sozinha e destruir toda aquela casa, eu tinha de fazer isso, mas levantar era difícil e eu só queria voltar para casa. A minha casa, não esta casa.
Não acho que Forrest se importava do motivo, mas eu estava de volta. Eu também não entendia o motivo, mas era tudo muito novo, apesar de antigo. Forrest devia pensar que era tudo como nos velhos tempos, que éramos como pão e manteiga outra vez, e todo dia ele colhia novas flores, e bonitas, para colocar no meu quarto. Ah, Forrest, pra ele eu dei um Nike, desses especiais para correr. E ensinei Forrest a dançar na medida do possível, e ali talvez até fôssemos como uma família, eu e Forrest, a época mais feliz da minha vida.
O 4 de julho foi algo estranho. Éramos como um família, eu e Forrest, e então ele me pediu em casamento enquanto eu ia para a cama. Ele parado perto da porta da sala, com o tênis ainda novo em folha e aquela cara que só Forrest era capaz de fazer. Ele daria um bom marido, é claro. – Mas você não quer se casar comigo. – Eu poderia garantir que era ele quem não queria se casar comigo. – Por que você não me ama, Jenny? Eu não sou um homem inteligente, mas eu sei o que é o amor. – Eu sabia daquilo tudo, mas o amor não era mais uma questão de amar e ser feliz. Eu amava, era feliz, tinha percebido. Mas amar não bastava em alguns casos e tudo o que eu queria era sumir daquelas escadas e não ver Forrest se humilhar por alguém que não lhe valia a pena, não importasse o que ele iria me dizer, não importasse o que eu iria dizer a ele. Forrest foi para a porta e eu fui para as escadas, mas como a vida podia ser tão complicada se há algumas horas eu era simplesmente tão feliz? Acabei aquela noite chuvosa no quarto de Forrest: – Forrest, eu te amo, sim. – Nos beijamos ternamente e eu mesma tirei minha bata. Forrest não sabia bem o que fazer, mas, Deus, também eu não sabia o que fazer e acho que queria fazê-lo, mas no fundo... No fundo valeu a pena, pude ver vários anos depois.
Mas no raso, de manhã bem cedo um táxi me esperava, numa manhã tão bela quanto aquela do reencontro. O moço de bigode me lia pelas passadas: – Para onde você está fugindo? – Mas eu não estava fugindo, não do modo como ele pensaria, porque eu fugia um pouco de Forrest e eu fugia de mim.
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O tênis foi bem útil para Forrest porque ele tinha muito no que pensar, penso eu. Descobri quando vi na tevê que um jardineiro de Greenbow, Alabama, corria há mais de dois anos atravessando os Estados Unidos sem dar motivo algum, e cruzava pela quarta vez o rio Mississipi, e ah, Forrest, eu não poderia acreditar. Só corra, Forrest, corra.
10.12.09
Seu Baltazar, Vittorio De Sica e eu
Uma infecçãozinha de garganta me fez aceitar a intimação de mamãe e vir passar o fim de semana em Unaí - tomando por fim de semana o período entre quarta-feira e domingo. Fazia quase um mês que eu não vinha pra cá. Mas aquilo que seria um preview das férias tem sido interessante.
Lembro bem do nó na garganta logo em que cheguei na cidade, quarta à tarde. Não havia sombra das luzes de Natal! E não tinha movimento natalino, em pleno dia 9. Sinal de que a cidade cresceu e não acredita mais em Papai Noel. Eu seguia lembrando da infância comendo panetone, na lojinha da vovó, perto da meia-noite do dia 24. Ou o lombo trançado que mamãe fazia, na lojinha da vovó, perto da meia-noite do dia 23. Ou o sorvete de panetone que dindinha fazia, na lojinha da vovó, perto da meia-noite do dia 22. Eu sentia o gosto daquilo enquanto acelerava pra continuar na avenida e entregar pra coleção da vovó um frila que peguei pro Jornal de Brasília. Eu cresci, a cidade cresceu, mas a vovó ainda tá lá, firme nos seus poucos metros quadrados em que as clientes também não crescem, me chamam por nome e dizem como eu cresci.
O dia 10 foi mais incisivo. Unir três pontos cruciais da vida em uma só cena é coisa cinematográfica, fantástica. Ali estavam uma criancinha, um jovem ambicioso e... bem, o que estou virando, seja lá o que for. Algo meio Ieri, Oggi, Domani, aquele do Vittorio De Sica. Tirando o ponto de que nenhum dos meus três personagens é uma prostituta, juro. Tudo isso quando, enquanto caminhava avoado ouvindo Ligabue, vi o seu Baltazar.
Quem caminhava era um misto daquele que sou, com aquele que estou virando, com aquele que quero ser. Essas caminhadas que sempre me prometo e nem sempre executo, mas que dessa vez topei fazer depois de uma boa tempestade na cidade. Um reflexo da maturidade que chega com suas doenças e o monte de coisas que me convence a fazer algum exercício físico. Quem ouvia Ligabue era um um jovenzinho ambicioso, que com a música estava finalmente estava aprendendo italiano direito e sozinho, pela primeira vez (sozinho) pensava em fazer jornalismo, finalmente entendia (direito) futebol e implorava por sair dessa cidade de onde agora escreve. A criancinha dá uma história à parte. Adoro a criancinha. E adoro seu Baltazar.
Na memória mais antiga que tenho dos dois juntos, um pirralho ainda meio loirinho no baixo de seus seis anos disparava pelas escadas pra encontrar aquele senhor amável, com um Pralana caramelo desgastado na cabeça. O interfone do prédio estava estragado. Papai havia acabado de ligar avisando que seu Baltazar estava lá embaixo esperando. Seu Baltazar foi um dos ícones da minha infância. Fazia o melhor requeijão da cidade. Ou da cidade que eu tinha aos seis anos. E, o mais importante de tudo, naquele dia seu Baltazar havia guardado as rapas pra mim pela primeira vez. Rapa é uma coisa meio escura que fica no tacho quando se faz o requeijão - e mais gostosa que o próprio. Rapa é coisa boa, acredite. Enquanto morei ali, por nove anos, seu Baltazar sempre levou requeijão. E guardava minha rapa, sempre, num potinho de Doriana. E hoje eu nem sei mais se Doriana ainda existe.
Pois seu Baltazar sumiu depois que fui pro outro lado da cidade. Há uns três anos, papai disse que "o velho morreu". Foi um dia triste. Papai não costuma fazer rodeios para calar a boca de quem o atrapalha a assistir o jornal na TV e provavelmente nem sabia de quem eu perguntava. Feliz foi hoje, enquanto Ligabue cantava que os sonhos são todos grátis, ainda que quase todos já estejam usados. Na Cinecittà, De Sica poderia ter eternizado um velhinho que empurrava sua Monark azul de uma década atrás e cumprimentava um garoto que, aos poucos, avançaria num êxtase silencioso enquanto o senhor se distanciava com um potinho de Doriana em sua garupa. Um ladrão da bicicleta mais importante de uma infância.
Lembro bem do nó na garganta logo em que cheguei na cidade, quarta à tarde. Não havia sombra das luzes de Natal! E não tinha movimento natalino, em pleno dia 9. Sinal de que a cidade cresceu e não acredita mais em Papai Noel. Eu seguia lembrando da infância comendo panetone, na lojinha da vovó, perto da meia-noite do dia 24. Ou o lombo trançado que mamãe fazia, na lojinha da vovó, perto da meia-noite do dia 23. Ou o sorvete de panetone que dindinha fazia, na lojinha da vovó, perto da meia-noite do dia 22. Eu sentia o gosto daquilo enquanto acelerava pra continuar na avenida e entregar pra coleção da vovó um frila que peguei pro Jornal de Brasília. Eu cresci, a cidade cresceu, mas a vovó ainda tá lá, firme nos seus poucos metros quadrados em que as clientes também não crescem, me chamam por nome e dizem como eu cresci.
O dia 10 foi mais incisivo. Unir três pontos cruciais da vida em uma só cena é coisa cinematográfica, fantástica. Ali estavam uma criancinha, um jovem ambicioso e... bem, o que estou virando, seja lá o que for. Algo meio Ieri, Oggi, Domani, aquele do Vittorio De Sica. Tirando o ponto de que nenhum dos meus três personagens é uma prostituta, juro. Tudo isso quando, enquanto caminhava avoado ouvindo Ligabue, vi o seu Baltazar.
Quem caminhava era um misto daquele que sou, com aquele que estou virando, com aquele que quero ser. Essas caminhadas que sempre me prometo e nem sempre executo, mas que dessa vez topei fazer depois de uma boa tempestade na cidade. Um reflexo da maturidade que chega com suas doenças e o monte de coisas que me convence a fazer algum exercício físico. Quem ouvia Ligabue era um um jovenzinho ambicioso, que com a música estava finalmente estava aprendendo italiano direito e sozinho, pela primeira vez (sozinho) pensava em fazer jornalismo, finalmente entendia (direito) futebol e implorava por sair dessa cidade de onde agora escreve. A criancinha dá uma história à parte. Adoro a criancinha. E adoro seu Baltazar.
Na memória mais antiga que tenho dos dois juntos, um pirralho ainda meio loirinho no baixo de seus seis anos disparava pelas escadas pra encontrar aquele senhor amável, com um Pralana caramelo desgastado na cabeça. O interfone do prédio estava estragado. Papai havia acabado de ligar avisando que seu Baltazar estava lá embaixo esperando. Seu Baltazar foi um dos ícones da minha infância. Fazia o melhor requeijão da cidade. Ou da cidade que eu tinha aos seis anos. E, o mais importante de tudo, naquele dia seu Baltazar havia guardado as rapas pra mim pela primeira vez. Rapa é uma coisa meio escura que fica no tacho quando se faz o requeijão - e mais gostosa que o próprio. Rapa é coisa boa, acredite. Enquanto morei ali, por nove anos, seu Baltazar sempre levou requeijão. E guardava minha rapa, sempre, num potinho de Doriana. E hoje eu nem sei mais se Doriana ainda existe.
Pois seu Baltazar sumiu depois que fui pro outro lado da cidade. Há uns três anos, papai disse que "o velho morreu". Foi um dia triste. Papai não costuma fazer rodeios para calar a boca de quem o atrapalha a assistir o jornal na TV e provavelmente nem sabia de quem eu perguntava. Feliz foi hoje, enquanto Ligabue cantava que os sonhos são todos grátis, ainda que quase todos já estejam usados. Na Cinecittà, De Sica poderia ter eternizado um velhinho que empurrava sua Monark azul de uma década atrás e cumprimentava um garoto que, aos poucos, avançaria num êxtase silencioso enquanto o senhor se distanciava com um potinho de Doriana em sua garupa. Um ladrão da bicicleta mais importante de uma infância.
5.7.09
The book is on the table
Jacek não sabia muita coisa, já no alto de seus trinta anos. Sabia onde achar a casa, o banco e a praça, dizer seu sobrenome, explicar a diferença entre verbos perfectivos e imperfectivos, declinar as palavras corretamente. Maria e Jacek se completavam. Ela sabia chegar ao aeroporto, chamar um táxi, fazer uma ligação e pedir algo num restaurante indo-polonês.
John era feliz com Alice. Tudo bem que os dois tinham apenas doze anos, cada. Mas ele sabia reconhecer todos os animais, possuía todos os adjetivos na ponta da língua e sabia o que ia ser quando crescesse. Ela tinha um extenso vocabulário geopolítico, reconhecia culturas ao redor do mundo e nunca errava as horas. Um futuro promissor para o casal de já-namorados.
Marco e Ilaria tinham muitas preocupações em suas vidas de jovens universitários, como descrever todos os pontos turísticos de Roma, os principais eventos de Milão, a temperatura de Turim e a história de Gênova. Todos o conheciam por ser o mais popular entre os seus. Todos a conheciam por ser a mais bela entre as suas.
Os seis se encontraram com Ricardo e Aline, certa feita. Estes não eram lá muito legais, apesar de sempre dizerem isso um para o outro. Eram difíceis de agradar: só falavam sobre carnaval, praias, samba e televisão. E pelo jeito não tinham muita ambição, o que era surpreendentemente comum aos outros.
Todos se entreolhavam impassíveis, sem saber o que fazer, o que pensar, o que dizer, para onde correr. Nazywam się Jacek, o polonês se adiantou. Maria sorriu e disse Maria, enquanto italianos e brasileiros riam daquele modo estranho e anasalado de se dizer Maria. Depois Aline lhe estendeu a mão, mas Maria evitou o contato com a desconhecida. Ricardo abraçou Marco, mas tentou fugir quando aquele carcamano de merda tentou lhe acertar um beijo na testa.
John observava a cena meio que consternado, pensando o quão nonsense era toda aquela situação, com vários adultos se estranhando de um jeito algo contemplativo. Porém não tardou a descobrir que o problema não era exatamente com eles. E que também não era possível fazer uma história que fizesse sentido tirando os personagens dos lugares de onde vieram.
John era feliz com Alice. Tudo bem que os dois tinham apenas doze anos, cada. Mas ele sabia reconhecer todos os animais, possuía todos os adjetivos na ponta da língua e sabia o que ia ser quando crescesse. Ela tinha um extenso vocabulário geopolítico, reconhecia culturas ao redor do mundo e nunca errava as horas. Um futuro promissor para o casal de já-namorados.
Marco e Ilaria tinham muitas preocupações em suas vidas de jovens universitários, como descrever todos os pontos turísticos de Roma, os principais eventos de Milão, a temperatura de Turim e a história de Gênova. Todos o conheciam por ser o mais popular entre os seus. Todos a conheciam por ser a mais bela entre as suas.
Os seis se encontraram com Ricardo e Aline, certa feita. Estes não eram lá muito legais, apesar de sempre dizerem isso um para o outro. Eram difíceis de agradar: só falavam sobre carnaval, praias, samba e televisão. E pelo jeito não tinham muita ambição, o que era surpreendentemente comum aos outros.
Todos se entreolhavam impassíveis, sem saber o que fazer, o que pensar, o que dizer, para onde correr. Nazywam się Jacek, o polonês se adiantou. Maria sorriu e disse Maria, enquanto italianos e brasileiros riam daquele modo estranho e anasalado de se dizer Maria. Depois Aline lhe estendeu a mão, mas Maria evitou o contato com a desconhecida. Ricardo abraçou Marco, mas tentou fugir quando aquele carcamano de merda tentou lhe acertar um beijo na testa.
John observava a cena meio que consternado, pensando o quão nonsense era toda aquela situação, com vários adultos se estranhando de um jeito algo contemplativo. Porém não tardou a descobrir que o problema não era exatamente com eles. E que também não era possível fazer uma história que fizesse sentido tirando os personagens dos lugares de onde vieram.
12.5.09
Erro de cálculo
Cinco e quinze e os vigilantes já estavam acordados. Batia fraco o ritmo da noite. Depois de mais um dia de trabalho, o movimento na cidade tinha acabado de cessar e o sol estava prestes a nascer para marcar o fim da rotina daquela quarta-feira. Quando mandou a geladeira lhe dar um refrigerante, Luana ouviu o âncora que lhe lembrava que amanhã era o grande dia. O mundo finalmente ia acabar, segundo as profecias maias.
E acabar assim tão cedo, suspirou enquanto confirmava a programação da casa antes de se deitar. Em pleno século XXIX, que absurdo é alguma coisa acabar com o mundo. Ainda mais com o que todos os países gastavam com segurança nacional e evolução científica. A terra ia tremer por algum motivo inexplicável aos leigos, a água ia tomar conta do que ainda não tinha tomado e todos os dois bilhões de habitantes do planeta seriam dizimados.
O mundo ia acabar e ela só tinha 22 anos. Não tinha nem comprado seu carro. A vida tinha sido dura desde que seus pais morreram, mas justo no momento em que havia conseguido se equilibrar, os maias iam destruir os vivos. Era recalque porque tinham sido destruídos, ela estava certa. Não contentes com a própria morte, resolveram então matar quem quer que nascesse dois milênios depois.
Os lingüistas e os tradutores e os arqueólogos e os paleontólogos haviam passado um bom tempo para interpretar a mensagem maia. Aqueles índios peruanos já haviam tentado destruir o mundo mais três vezes, mas sempre tinha sido só um desastrezinho qualquer. Mas toda essa turma garantia que dessa vez o planeta convergia mesmo para que a profecia se cumprisse. Em 2012, do nada a chuva começou e precisou de três dias para matar quase um bilhão de pessoas.
Bem que podia ser assim de novo. Um bilhão, cinqüenta milhões só no Brasil, não era nada. Na época o mundo tinha muita gente e, não fosse a chuva, não deveria durar por muito tempo mesmo. Outro bilhão desse cortaria metade da população de hoje, mas um por um era um risco que valia a pena. E chorava enquanto Letícia tentava confortá-la de que era algo bobo e que as duas continuariam felizes para criarem juntas o filho que viria no próximo mês.
Já passava das oito horas quando Luana finalmente conseguiu pegar no sono, enquanto o sol queimava do lado de fora. Pouco depois a terra tremeu. Do apartamento ao lado vinha a gritaria de um pastor gritando que Jesus ama a todos e a felicidade ia finalmente chegar. Engraçado a religião voltar à moda nos momentos mais difíceis. Jesus agora ama a todos. Talvez Deus então não ame. A terra continuava tremendo e Jesus ainda amava quando tudo parou e se tranqüilizou, sem grandes perdas e com as pessoas intocadas.
Mal pensavam que todos os especialistas podiam errar suas contas em pleno 2876. E na sexta-feira dois bilhões de pessoas se foram.
E acabar assim tão cedo, suspirou enquanto confirmava a programação da casa antes de se deitar. Em pleno século XXIX, que absurdo é alguma coisa acabar com o mundo. Ainda mais com o que todos os países gastavam com segurança nacional e evolução científica. A terra ia tremer por algum motivo inexplicável aos leigos, a água ia tomar conta do que ainda não tinha tomado e todos os dois bilhões de habitantes do planeta seriam dizimados.
O mundo ia acabar e ela só tinha 22 anos. Não tinha nem comprado seu carro. A vida tinha sido dura desde que seus pais morreram, mas justo no momento em que havia conseguido se equilibrar, os maias iam destruir os vivos. Era recalque porque tinham sido destruídos, ela estava certa. Não contentes com a própria morte, resolveram então matar quem quer que nascesse dois milênios depois.
Os lingüistas e os tradutores e os arqueólogos e os paleontólogos haviam passado um bom tempo para interpretar a mensagem maia. Aqueles índios peruanos já haviam tentado destruir o mundo mais três vezes, mas sempre tinha sido só um desastrezinho qualquer. Mas toda essa turma garantia que dessa vez o planeta convergia mesmo para que a profecia se cumprisse. Em 2012, do nada a chuva começou e precisou de três dias para matar quase um bilhão de pessoas.
Bem que podia ser assim de novo. Um bilhão, cinqüenta milhões só no Brasil, não era nada. Na época o mundo tinha muita gente e, não fosse a chuva, não deveria durar por muito tempo mesmo. Outro bilhão desse cortaria metade da população de hoje, mas um por um era um risco que valia a pena. E chorava enquanto Letícia tentava confortá-la de que era algo bobo e que as duas continuariam felizes para criarem juntas o filho que viria no próximo mês.
Já passava das oito horas quando Luana finalmente conseguiu pegar no sono, enquanto o sol queimava do lado de fora. Pouco depois a terra tremeu. Do apartamento ao lado vinha a gritaria de um pastor gritando que Jesus ama a todos e a felicidade ia finalmente chegar. Engraçado a religião voltar à moda nos momentos mais difíceis. Jesus agora ama a todos. Talvez Deus então não ame. A terra continuava tremendo e Jesus ainda amava quando tudo parou e se tranqüilizou, sem grandes perdas e com as pessoas intocadas.
Mal pensavam que todos os especialistas podiam errar suas contas em pleno 2876. E na sexta-feira dois bilhões de pessoas se foram.
Pique-esconde
Quatro mil quatrocentos e noventa e sete. Quatro mil quatrocentos e noventa e oito. Quatro mil quatrocentos e noventa e nove. Cinco mil. Ítalo respirou fundo e lá vou eu. E lá foi ele olhar em volta e ver tudo o que tinha à sua volta. Voltar os olhos para o nada, encontrando tudo o que via e sem saber quando parar. Ítalo estava sozinho, cinco mil vezes depois de não ver todos saírem correndo. Não sabia onde procurar. E o pique era seu.
O pique era seu. Afinal, foi a onça quem lhe deu. Quem saísse do pique estava pego, mas a cidade era grande demais para uma brincadeira de criança. A parede na qual fizera o tempo passar era seu reduto e agora só a ela se resumia sua cidade. Quando Ítalo deu as costas para que os outros fugissem em paz, viu que isso a onça não tinha planejado. E a cidade não era sua.
Um bêbado tropeçava nas próprias pernas sem fazer cair a garrafa. Um bebê chorava sob o sol enquanto sua mãe clamava por moedas. Uma estátua agradecia os passantes pelas moedas recebidas. Não, não era isso que procurava. Um carro atropelava um garoto que fugia desabalado de uma senhora que gritava a polícia que só queria multar o motorista. Mas não era isso que tinha se escondido.
Não conseguia focar no que tinha deixado para trás ao virar as costas e deixar deixarem-no para trás. Quando resolveu contar sem fazer as contas do que iria perder, não sabia olhar para si. Olhar por cima e, ainda correndo sob o sol fustigante da cidade em busca dos desaparecidos, entrar naquela sala escura onde um corpo descansava entre o choro seco de três carpideiras. Foi quando finalmente se encontrou imóvel para sempre e percebeu que todo esse tempo estava buscando quem nunca tinha lhe encontrado.
O pique era seu. Afinal, foi a onça quem lhe deu. Quem saísse do pique estava pego, mas a cidade era grande demais para uma brincadeira de criança. A parede na qual fizera o tempo passar era seu reduto e agora só a ela se resumia sua cidade. Quando Ítalo deu as costas para que os outros fugissem em paz, viu que isso a onça não tinha planejado. E a cidade não era sua.
Um bêbado tropeçava nas próprias pernas sem fazer cair a garrafa. Um bebê chorava sob o sol enquanto sua mãe clamava por moedas. Uma estátua agradecia os passantes pelas moedas recebidas. Não, não era isso que procurava. Um carro atropelava um garoto que fugia desabalado de uma senhora que gritava a polícia que só queria multar o motorista. Mas não era isso que tinha se escondido.
Não conseguia focar no que tinha deixado para trás ao virar as costas e deixar deixarem-no para trás. Quando resolveu contar sem fazer as contas do que iria perder, não sabia olhar para si. Olhar por cima e, ainda correndo sob o sol fustigante da cidade em busca dos desaparecidos, entrar naquela sala escura onde um corpo descansava entre o choro seco de três carpideiras. Foi quando finalmente se encontrou imóvel para sempre e percebeu que todo esse tempo estava buscando quem nunca tinha lhe encontrado.
5.5.09
Título bom é pros fracos
Puto. Ele tava puto. Muito puto. Nem era muito, mas naquela hora bem que tava. Puto. Mas puto pra caralho. Aquela maldita gostava mesmo era de atrapalhar sua vida. Não lhe conhecia nenhum pouco. Ele suspeitava disso, mas era tarde demais. Tinha escolhido aquilo e agora o orgulho o segurava no bonde. E como isso o deixava puto. Não tinha opção. E mesmo que tivesse agora no desespero, na hora certa não teria opção.
A opção tinha fugido e agora estava longe. Bem que estava perto, mas estava bem além. Sempre estava perto, mas nunca tinha estado tão longe. E isso o deixava puto. Um leão intratável não estaria tão puto. Puto com tudo. Tudo puto com ele e isso o deixava puto. Mas confuso. E puto. Mais confuso.
É fácil fazer escolhas e ainda mais fácil é conviver com elas. Incômodo mesmo é conviver com as escolhas que foram deixadas de lado. Se não haviam sido escolhidas, por que é que ainda estavam lá? Tinham sido negadas meio a contragosto. E por contragosto mesmo é que a negação se fazia tão forte. Se não dava pra negar, não dava pra perder. Simplesmente não queria negar. Tampouco aceitava perder. E isso o deixava puto. Mas não com tudo. Consigo e só. E muito só. Contudo, não só com isso. Mas só. Na hora de respirar fundo, não havia outra opção para continuar sendo humano. Respirar fundo e só. Ainda só. Sempre só.
O inconformismo era o cimento da melancolia. O que importava era que os outros intuíssem que ele estava puto, ainda que não estivesse para si, ainda que não ainda para todos, ainda que ainda não houvesse nada para que ela fizesse. Talvez tudo ficasse bem. Provavelmente não. Mas os dois já se acostumaram a manter sua terra girando mesmo enquanto esperavam-na parar. E não era dessa vez que algo mudaria.
A opção tinha fugido e agora estava longe. Bem que estava perto, mas estava bem além. Sempre estava perto, mas nunca tinha estado tão longe. E isso o deixava puto. Um leão intratável não estaria tão puto. Puto com tudo. Tudo puto com ele e isso o deixava puto. Mas confuso. E puto. Mais confuso.
É fácil fazer escolhas e ainda mais fácil é conviver com elas. Incômodo mesmo é conviver com as escolhas que foram deixadas de lado. Se não haviam sido escolhidas, por que é que ainda estavam lá? Tinham sido negadas meio a contragosto. E por contragosto mesmo é que a negação se fazia tão forte. Se não dava pra negar, não dava pra perder. Simplesmente não queria negar. Tampouco aceitava perder. E isso o deixava puto. Mas não com tudo. Consigo e só. E muito só. Contudo, não só com isso. Mas só. Na hora de respirar fundo, não havia outra opção para continuar sendo humano. Respirar fundo e só. Ainda só. Sempre só.
O inconformismo era o cimento da melancolia. O que importava era que os outros intuíssem que ele estava puto, ainda que não estivesse para si, ainda que não ainda para todos, ainda que ainda não houvesse nada para que ela fizesse. Talvez tudo ficasse bem. Provavelmente não. Mas os dois já se acostumaram a manter sua terra girando mesmo enquanto esperavam-na parar. E não era dessa vez que algo mudaria.
4.5.09
O todo é história
No fim do século XIX, ao mesmo tempo em que um norte-americano qualquer deixava seu país rumo à Espanha, em Lisboa um garotinho de doze anos arrumava sua trouxa de roupas para se engajar como ajudante de cozinha num dos veleiros que partiriam para o Brasil. Os dois nunca se conheceram.
O que importa é que o veleiro demoraria mais de um mês para chegar ao Rio de Janeiro. O suficiente para o americano alcançar Talavera de La Reina, vilarejo no qual ninguém falava inglês, mas não media esforços para fazer as vontades do gringo e de seu dinheiro, que insistiam: “I like to go on Tijo”. O condutor do tílburi custou, mas entendeu e gastou as rodas e as patas do cavalo até levá-lo ao rio Tejo, que banha a cidade. Emocionado por ver o rio do qual seu pai tanto falava, não parava de chorar e repetir que gostava “so much go on Tijo”. O carroceiro guardou aquela pronúncia fanha na memória e, na semana seguinte, pediu à filha que batizasse sua primeira neta com o nome de America Gontijo, para homenagear o gringo.
Enquanto a pequena espanhola nascia, António Moreira chegava ao Rio para trabalhar no comércio de um amigo de seu pai, no alto de seus doze anos. Não precisou de muito tempo para arrumar confusão com aquele homem enérgico e fugir para o interior do país. Gastou anos, mas conseguiu emprego como caseiro numa fazenda na região do rio Abaeté. E mais alguns anos até ganhar a confiança da família e ser digno da função de capataz e da mão de uma das sobrinhas do fazendeiro.
O casamento do Moreira gastou mais de ano para virar realidade, mas de boca a boca sua festa já causava alvoroço em toda a região do Abaeté. Tumulto maior só vivia a região de Castela, no auge da Guerra Civil Espanhola. America Gontijo foi uma das que deixou seu país às pressas e não teve muita opção além de pegar o primeiro navio para o continente que lhe dera o nome e desembarcar no Brasil.
As duas histórias foram unidas pelo destino ou por algo ainda mais etéreo quando a matriarca resolveu que a porção dos Gontijo no Brasil tentaria a sorte nas Minas Gerais, publicamente já sem ouro, mas agora com tanto gado, soja e café. O primeiro resultado do casamento do Moreira foi um espirituoso José Olímpio. E das desventuras da America espanhola pela América já brasileira, o último fruto foi Porcelina. Mal poderiam sonhar que setenta anos depois as duas famílias se uniriam no noroeste do estado para juntar um nome alemão a essa história interminável.
O que importa é que o veleiro demoraria mais de um mês para chegar ao Rio de Janeiro. O suficiente para o americano alcançar Talavera de La Reina, vilarejo no qual ninguém falava inglês, mas não media esforços para fazer as vontades do gringo e de seu dinheiro, que insistiam: “I like to go on Tijo”. O condutor do tílburi custou, mas entendeu e gastou as rodas e as patas do cavalo até levá-lo ao rio Tejo, que banha a cidade. Emocionado por ver o rio do qual seu pai tanto falava, não parava de chorar e repetir que gostava “so much go on Tijo”. O carroceiro guardou aquela pronúncia fanha na memória e, na semana seguinte, pediu à filha que batizasse sua primeira neta com o nome de America Gontijo, para homenagear o gringo.
Enquanto a pequena espanhola nascia, António Moreira chegava ao Rio para trabalhar no comércio de um amigo de seu pai, no alto de seus doze anos. Não precisou de muito tempo para arrumar confusão com aquele homem enérgico e fugir para o interior do país. Gastou anos, mas conseguiu emprego como caseiro numa fazenda na região do rio Abaeté. E mais alguns anos até ganhar a confiança da família e ser digno da função de capataz e da mão de uma das sobrinhas do fazendeiro.
O casamento do Moreira gastou mais de ano para virar realidade, mas de boca a boca sua festa já causava alvoroço em toda a região do Abaeté. Tumulto maior só vivia a região de Castela, no auge da Guerra Civil Espanhola. America Gontijo foi uma das que deixou seu país às pressas e não teve muita opção além de pegar o primeiro navio para o continente que lhe dera o nome e desembarcar no Brasil.
As duas histórias foram unidas pelo destino ou por algo ainda mais etéreo quando a matriarca resolveu que a porção dos Gontijo no Brasil tentaria a sorte nas Minas Gerais, publicamente já sem ouro, mas agora com tanto gado, soja e café. O primeiro resultado do casamento do Moreira foi um espirituoso José Olímpio. E das desventuras da America espanhola pela América já brasileira, o último fruto foi Porcelina. Mal poderiam sonhar que setenta anos depois as duas famílias se uniriam no noroeste do estado para juntar um nome alemão a essa história interminável.
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