Jacek não sabia muita coisa, já no alto de seus trinta anos. Sabia onde achar a casa, o banco e a praça, dizer seu sobrenome, explicar a diferença entre verbos perfectivos e imperfectivos, declinar as palavras corretamente. Maria e Jacek se completavam. Ela sabia chegar ao aeroporto, chamar um táxi, fazer uma ligação e pedir algo num restaurante indo-polonês.
John era feliz com Alice. Tudo bem que os dois tinham apenas doze anos, cada. Mas ele sabia reconhecer todos os animais, possuía todos os adjetivos na ponta da língua e sabia o que ia ser quando crescesse. Ela tinha um extenso vocabulário geopolítico, reconhecia culturas ao redor do mundo e nunca errava as horas. Um futuro promissor para o casal de já-namorados.
Marco e Ilaria tinham muitas preocupações em suas vidas de jovens universitários, como descrever todos os pontos turísticos de Roma, os principais eventos de Milão, a temperatura de Turim e a história de Gênova. Todos o conheciam por ser o mais popular entre os seus. Todos a conheciam por ser a mais bela entre as suas.
Os seis se encontraram com Ricardo e Aline, certa feita. Estes não eram lá muito legais, apesar de sempre dizerem isso um para o outro. Eram difíceis de agradar: só falavam sobre carnaval, praias, samba e televisão. E pelo jeito não tinham muita ambição, o que era surpreendentemente comum aos outros.
Todos se entreolhavam impassíveis, sem saber o que fazer, o que pensar, o que dizer, para onde correr. Nazywam się Jacek, o polonês se adiantou. Maria sorriu e disse Maria, enquanto italianos e brasileiros riam daquele modo estranho e anasalado de se dizer Maria. Depois Aline lhe estendeu a mão, mas Maria evitou o contato com a desconhecida. Ricardo abraçou Marco, mas tentou fugir quando aquele carcamano de merda tentou lhe acertar um beijo na testa.
John observava a cena meio que consternado, pensando o quão nonsense era toda aquela situação, com vários adultos se estranhando de um jeito algo contemplativo. Porém não tardou a descobrir que o problema não era exatamente com eles. E que também não era possível fazer uma história que fizesse sentido tirando os personagens dos lugares de onde vieram.
5.7.09
12.5.09
Erro de cálculo
Cinco e quinze e os vigilantes já estavam acordados. Batia fraco o ritmo da noite. Depois de mais um dia de trabalho, o movimento na cidade tinha acabado de cessar e o sol estava prestes a nascer para marcar o fim da rotina daquela quarta-feira. Quando mandou a geladeira lhe dar um refrigerante, Luana ouviu o âncora que lhe lembrava que amanhã era o grande dia. O mundo finalmente ia acabar, segundo as profecias maias.
E acabar assim tão cedo, suspirou enquanto confirmava a programação da casa antes de se deitar. Em pleno século XXIX, que absurdo é alguma coisa acabar com o mundo. Ainda mais com o que todos os países gastavam com segurança nacional e evolução científica. A terra ia tremer por algum motivo inexplicável aos leigos, a água ia tomar conta do que ainda não tinha tomado e todos os dois bilhões de habitantes do planeta seriam dizimados.
O mundo ia acabar e ela só tinha 22 anos. Não tinha nem comprado seu carro. A vida tinha sido dura desde que seus pais morreram, mas justo no momento em que havia conseguido se equilibrar, os maias iam destruir os vivos. Era recalque porque tinham sido destruídos, ela estava certa. Não contentes com a própria morte, resolveram então matar quem quer que nascesse dois milênios depois.
Os lingüistas e os tradutores e os arqueólogos e os paleontólogos haviam passado um bom tempo para interpretar a mensagem maia. Aqueles índios peruanos já haviam tentado destruir o mundo mais três vezes, mas sempre tinha sido só um desastrezinho qualquer. Mas toda essa turma garantia que dessa vez o planeta convergia mesmo para que a profecia se cumprisse. Em 2012, do nada a chuva começou e precisou de três dias para matar quase um bilhão de pessoas.
Bem que podia ser assim de novo. Um bilhão, cinqüenta milhões só no Brasil, não era nada. Na época o mundo tinha muita gente e, não fosse a chuva, não deveria durar por muito tempo mesmo. Outro bilhão desse cortaria metade da população de hoje, mas um por um era um risco que valia a pena. E chorava enquanto Letícia tentava confortá-la de que era algo bobo e que as duas continuariam felizes para criarem juntas o filho que viria no próximo mês.
Já passava das oito horas quando Luana finalmente conseguiu pegar no sono, enquanto o sol queimava do lado de fora. Pouco depois a terra tremeu. Do apartamento ao lado vinha a gritaria de um pastor gritando que Jesus ama a todos e a felicidade ia finalmente chegar. Engraçado a religião voltar à moda nos momentos mais difíceis. Jesus agora ama a todos. Talvez Deus então não ame. A terra continuava tremendo e Jesus ainda amava quando tudo parou e se tranqüilizou, sem grandes perdas e com as pessoas intocadas.
Mal pensavam que todos os especialistas podiam errar suas contas em pleno 2876. E na sexta-feira dois bilhões de pessoas se foram.
E acabar assim tão cedo, suspirou enquanto confirmava a programação da casa antes de se deitar. Em pleno século XXIX, que absurdo é alguma coisa acabar com o mundo. Ainda mais com o que todos os países gastavam com segurança nacional e evolução científica. A terra ia tremer por algum motivo inexplicável aos leigos, a água ia tomar conta do que ainda não tinha tomado e todos os dois bilhões de habitantes do planeta seriam dizimados.
O mundo ia acabar e ela só tinha 22 anos. Não tinha nem comprado seu carro. A vida tinha sido dura desde que seus pais morreram, mas justo no momento em que havia conseguido se equilibrar, os maias iam destruir os vivos. Era recalque porque tinham sido destruídos, ela estava certa. Não contentes com a própria morte, resolveram então matar quem quer que nascesse dois milênios depois.
Os lingüistas e os tradutores e os arqueólogos e os paleontólogos haviam passado um bom tempo para interpretar a mensagem maia. Aqueles índios peruanos já haviam tentado destruir o mundo mais três vezes, mas sempre tinha sido só um desastrezinho qualquer. Mas toda essa turma garantia que dessa vez o planeta convergia mesmo para que a profecia se cumprisse. Em 2012, do nada a chuva começou e precisou de três dias para matar quase um bilhão de pessoas.
Bem que podia ser assim de novo. Um bilhão, cinqüenta milhões só no Brasil, não era nada. Na época o mundo tinha muita gente e, não fosse a chuva, não deveria durar por muito tempo mesmo. Outro bilhão desse cortaria metade da população de hoje, mas um por um era um risco que valia a pena. E chorava enquanto Letícia tentava confortá-la de que era algo bobo e que as duas continuariam felizes para criarem juntas o filho que viria no próximo mês.
Já passava das oito horas quando Luana finalmente conseguiu pegar no sono, enquanto o sol queimava do lado de fora. Pouco depois a terra tremeu. Do apartamento ao lado vinha a gritaria de um pastor gritando que Jesus ama a todos e a felicidade ia finalmente chegar. Engraçado a religião voltar à moda nos momentos mais difíceis. Jesus agora ama a todos. Talvez Deus então não ame. A terra continuava tremendo e Jesus ainda amava quando tudo parou e se tranqüilizou, sem grandes perdas e com as pessoas intocadas.
Mal pensavam que todos os especialistas podiam errar suas contas em pleno 2876. E na sexta-feira dois bilhões de pessoas se foram.
Pique-esconde
Quatro mil quatrocentos e noventa e sete. Quatro mil quatrocentos e noventa e oito. Quatro mil quatrocentos e noventa e nove. Cinco mil. Ítalo respirou fundo e lá vou eu. E lá foi ele olhar em volta e ver tudo o que tinha à sua volta. Voltar os olhos para o nada, encontrando tudo o que via e sem saber quando parar. Ítalo estava sozinho, cinco mil vezes depois de não ver todos saírem correndo. Não sabia onde procurar. E o pique era seu.
O pique era seu. Afinal, foi a onça quem lhe deu. Quem saísse do pique estava pego, mas a cidade era grande demais para uma brincadeira de criança. A parede na qual fizera o tempo passar era seu reduto e agora só a ela se resumia sua cidade. Quando Ítalo deu as costas para que os outros fugissem em paz, viu que isso a onça não tinha planejado. E a cidade não era sua.
Um bêbado tropeçava nas próprias pernas sem fazer cair a garrafa. Um bebê chorava sob o sol enquanto sua mãe clamava por moedas. Uma estátua agradecia os passantes pelas moedas recebidas. Não, não era isso que procurava. Um carro atropelava um garoto que fugia desabalado de uma senhora que gritava a polícia que só queria multar o motorista. Mas não era isso que tinha se escondido.
Não conseguia focar no que tinha deixado para trás ao virar as costas e deixar deixarem-no para trás. Quando resolveu contar sem fazer as contas do que iria perder, não sabia olhar para si. Olhar por cima e, ainda correndo sob o sol fustigante da cidade em busca dos desaparecidos, entrar naquela sala escura onde um corpo descansava entre o choro seco de três carpideiras. Foi quando finalmente se encontrou imóvel para sempre e percebeu que todo esse tempo estava buscando quem nunca tinha lhe encontrado.
O pique era seu. Afinal, foi a onça quem lhe deu. Quem saísse do pique estava pego, mas a cidade era grande demais para uma brincadeira de criança. A parede na qual fizera o tempo passar era seu reduto e agora só a ela se resumia sua cidade. Quando Ítalo deu as costas para que os outros fugissem em paz, viu que isso a onça não tinha planejado. E a cidade não era sua.
Um bêbado tropeçava nas próprias pernas sem fazer cair a garrafa. Um bebê chorava sob o sol enquanto sua mãe clamava por moedas. Uma estátua agradecia os passantes pelas moedas recebidas. Não, não era isso que procurava. Um carro atropelava um garoto que fugia desabalado de uma senhora que gritava a polícia que só queria multar o motorista. Mas não era isso que tinha se escondido.
Não conseguia focar no que tinha deixado para trás ao virar as costas e deixar deixarem-no para trás. Quando resolveu contar sem fazer as contas do que iria perder, não sabia olhar para si. Olhar por cima e, ainda correndo sob o sol fustigante da cidade em busca dos desaparecidos, entrar naquela sala escura onde um corpo descansava entre o choro seco de três carpideiras. Foi quando finalmente se encontrou imóvel para sempre e percebeu que todo esse tempo estava buscando quem nunca tinha lhe encontrado.
5.5.09
Título bom é pros fracos
Puto. Ele tava puto. Muito puto. Nem era muito, mas naquela hora bem que tava. Puto. Mas puto pra caralho. Aquela maldita gostava mesmo era de atrapalhar sua vida. Não lhe conhecia nenhum pouco. Ele suspeitava disso, mas era tarde demais. Tinha escolhido aquilo e agora o orgulho o segurava no bonde. E como isso o deixava puto. Não tinha opção. E mesmo que tivesse agora no desespero, na hora certa não teria opção.
A opção tinha fugido e agora estava longe. Bem que estava perto, mas estava bem além. Sempre estava perto, mas nunca tinha estado tão longe. E isso o deixava puto. Um leão intratável não estaria tão puto. Puto com tudo. Tudo puto com ele e isso o deixava puto. Mas confuso. E puto. Mais confuso.
É fácil fazer escolhas e ainda mais fácil é conviver com elas. Incômodo mesmo é conviver com as escolhas que foram deixadas de lado. Se não haviam sido escolhidas, por que é que ainda estavam lá? Tinham sido negadas meio a contragosto. E por contragosto mesmo é que a negação se fazia tão forte. Se não dava pra negar, não dava pra perder. Simplesmente não queria negar. Tampouco aceitava perder. E isso o deixava puto. Mas não com tudo. Consigo e só. E muito só. Contudo, não só com isso. Mas só. Na hora de respirar fundo, não havia outra opção para continuar sendo humano. Respirar fundo e só. Ainda só. Sempre só.
O inconformismo era o cimento da melancolia. O que importava era que os outros intuíssem que ele estava puto, ainda que não estivesse para si, ainda que não ainda para todos, ainda que ainda não houvesse nada para que ela fizesse. Talvez tudo ficasse bem. Provavelmente não. Mas os dois já se acostumaram a manter sua terra girando mesmo enquanto esperavam-na parar. E não era dessa vez que algo mudaria.
A opção tinha fugido e agora estava longe. Bem que estava perto, mas estava bem além. Sempre estava perto, mas nunca tinha estado tão longe. E isso o deixava puto. Um leão intratável não estaria tão puto. Puto com tudo. Tudo puto com ele e isso o deixava puto. Mas confuso. E puto. Mais confuso.
É fácil fazer escolhas e ainda mais fácil é conviver com elas. Incômodo mesmo é conviver com as escolhas que foram deixadas de lado. Se não haviam sido escolhidas, por que é que ainda estavam lá? Tinham sido negadas meio a contragosto. E por contragosto mesmo é que a negação se fazia tão forte. Se não dava pra negar, não dava pra perder. Simplesmente não queria negar. Tampouco aceitava perder. E isso o deixava puto. Mas não com tudo. Consigo e só. E muito só. Contudo, não só com isso. Mas só. Na hora de respirar fundo, não havia outra opção para continuar sendo humano. Respirar fundo e só. Ainda só. Sempre só.
O inconformismo era o cimento da melancolia. O que importava era que os outros intuíssem que ele estava puto, ainda que não estivesse para si, ainda que não ainda para todos, ainda que ainda não houvesse nada para que ela fizesse. Talvez tudo ficasse bem. Provavelmente não. Mas os dois já se acostumaram a manter sua terra girando mesmo enquanto esperavam-na parar. E não era dessa vez que algo mudaria.
4.5.09
O todo é história
No fim do século XIX, ao mesmo tempo em que um norte-americano qualquer deixava seu país rumo à Espanha, em Lisboa um garotinho de doze anos arrumava sua trouxa de roupas para se engajar como ajudante de cozinha num dos veleiros que partiriam para o Brasil. Os dois nunca se conheceram.
O que importa é que o veleiro demoraria mais de um mês para chegar ao Rio de Janeiro. O suficiente para o americano alcançar Talavera de La Reina, vilarejo no qual ninguém falava inglês, mas não media esforços para fazer as vontades do gringo e de seu dinheiro, que insistiam: “I like to go on Tijo”. O condutor do tílburi custou, mas entendeu e gastou as rodas e as patas do cavalo até levá-lo ao rio Tejo, que banha a cidade. Emocionado por ver o rio do qual seu pai tanto falava, não parava de chorar e repetir que gostava “so much go on Tijo”. O carroceiro guardou aquela pronúncia fanha na memória e, na semana seguinte, pediu à filha que batizasse sua primeira neta com o nome de America Gontijo, para homenagear o gringo.
Enquanto a pequena espanhola nascia, António Moreira chegava ao Rio para trabalhar no comércio de um amigo de seu pai, no alto de seus doze anos. Não precisou de muito tempo para arrumar confusão com aquele homem enérgico e fugir para o interior do país. Gastou anos, mas conseguiu emprego como caseiro numa fazenda na região do rio Abaeté. E mais alguns anos até ganhar a confiança da família e ser digno da função de capataz e da mão de uma das sobrinhas do fazendeiro.
O casamento do Moreira gastou mais de ano para virar realidade, mas de boca a boca sua festa já causava alvoroço em toda a região do Abaeté. Tumulto maior só vivia a região de Castela, no auge da Guerra Civil Espanhola. America Gontijo foi uma das que deixou seu país às pressas e não teve muita opção além de pegar o primeiro navio para o continente que lhe dera o nome e desembarcar no Brasil.
As duas histórias foram unidas pelo destino ou por algo ainda mais etéreo quando a matriarca resolveu que a porção dos Gontijo no Brasil tentaria a sorte nas Minas Gerais, publicamente já sem ouro, mas agora com tanto gado, soja e café. O primeiro resultado do casamento do Moreira foi um espirituoso José Olímpio. E das desventuras da America espanhola pela América já brasileira, o último fruto foi Porcelina. Mal poderiam sonhar que setenta anos depois as duas famílias se uniriam no noroeste do estado para juntar um nome alemão a essa história interminável.
O que importa é que o veleiro demoraria mais de um mês para chegar ao Rio de Janeiro. O suficiente para o americano alcançar Talavera de La Reina, vilarejo no qual ninguém falava inglês, mas não media esforços para fazer as vontades do gringo e de seu dinheiro, que insistiam: “I like to go on Tijo”. O condutor do tílburi custou, mas entendeu e gastou as rodas e as patas do cavalo até levá-lo ao rio Tejo, que banha a cidade. Emocionado por ver o rio do qual seu pai tanto falava, não parava de chorar e repetir que gostava “so much go on Tijo”. O carroceiro guardou aquela pronúncia fanha na memória e, na semana seguinte, pediu à filha que batizasse sua primeira neta com o nome de America Gontijo, para homenagear o gringo.
Enquanto a pequena espanhola nascia, António Moreira chegava ao Rio para trabalhar no comércio de um amigo de seu pai, no alto de seus doze anos. Não precisou de muito tempo para arrumar confusão com aquele homem enérgico e fugir para o interior do país. Gastou anos, mas conseguiu emprego como caseiro numa fazenda na região do rio Abaeté. E mais alguns anos até ganhar a confiança da família e ser digno da função de capataz e da mão de uma das sobrinhas do fazendeiro.
O casamento do Moreira gastou mais de ano para virar realidade, mas de boca a boca sua festa já causava alvoroço em toda a região do Abaeté. Tumulto maior só vivia a região de Castela, no auge da Guerra Civil Espanhola. America Gontijo foi uma das que deixou seu país às pressas e não teve muita opção além de pegar o primeiro navio para o continente que lhe dera o nome e desembarcar no Brasil.
As duas histórias foram unidas pelo destino ou por algo ainda mais etéreo quando a matriarca resolveu que a porção dos Gontijo no Brasil tentaria a sorte nas Minas Gerais, publicamente já sem ouro, mas agora com tanto gado, soja e café. O primeiro resultado do casamento do Moreira foi um espirituoso José Olímpio. E das desventuras da America espanhola pela América já brasileira, o último fruto foi Porcelina. Mal poderiam sonhar que setenta anos depois as duas famílias se uniriam no noroeste do estado para juntar um nome alemão a essa história interminável.
28.4.09
Dou-lhe uma, dou-lhe duas
Tudo bem que é indie assistir leilão de gado no Canal do Boi. Todo aquele calafrio para saber se a fêmea que o leiloeiro apresenta está preparada para inseminação artificial, qual a parcela mínima e o prazo, quem são as matrizes, qual o nível do registro... Ah, como é bom fazer carão e desprezar quem acha que vai arrematar aquele monstruoso filho do Fajardo, um PO legítimo, por apenas 36 parcelas de três mil e quinhentos reais.
Indie mesmo é ir ao tatersal e assistir um leilão dando os lances pessoalmente, não sem antes verificar cada um dos lotes nos currais e depois churrascar com o leiloeiro numa roda de viola. Pois papai é indie. E tem programa para todas as noites de terças e quintas: um bom leilão de gado, mesmo em período de seca.
Papai diz que a diferença entre assistir em casa e pessoalmente é a mesma entre futebol no estádio e no sofá. Eu é que não vou discordar. A infância alternando a marcação das cotações com goles de Fanta Uva não me permite pensar outra coisa. No futebol as torcidas brigam fora do estádio. No leilão roubaram a caminhonete do papai.
Uma coisa é roubar algo de alguém em algum lugar qualquer. Outra é roubar a caminhonete do papai em seu segundo lar. Ele sabia disso. E boa parte do tatersal também. Quando papai teve de ir embora mais cedo e o estacionamento tinha uma F250 a menos, não foi preciso mais de quinze minutos para que o leilão virasse feira e pelo menos dez outras caminhonetes saíssem cantando pneu em busca da de papai. Porque papai, tatersalmente falando, é homem de respeito. E, em Minas, com homem de respeito não se mexe.
A polícia de Unaí costuma comentar que é praticamente impossível encontrar alguém que fuja em direção à zona rural da cidade. O labirinto de estradas dentro das fazendas torna a missão quase impossível para as viaturas. O caso é que descobri que falta sangue nos olhos da polícia. Porque a partir do momento em que a possante Nissan do dono do tatersal entrou na busca, não foi preciso mais de trinta minutos para que os celulares começassem a tocar e todos partirem para o mesmo lugar.
Se estavam acostumados em festa na Tucaneiros, o host do dia era papai. O ladrão, pobre diabo, tinha parado para pensar em uma fuga, mas ainda estava em sua área. Pior de tudo, sozinho. E papai nem precisou estar armado para tirar aquela sujeira de dentro da sua caminhonete e, dou-lhe uma, dou-lhe duas, convencê-lo de uma forma nada blasé de que seria melhor ele nunca mais voltasse a pisar em Unaí. Afinal, não é o fato de papai ser indie que tira o poder de suas ofertas irrecusáveis.
Indie mesmo é ir ao tatersal e assistir um leilão dando os lances pessoalmente, não sem antes verificar cada um dos lotes nos currais e depois churrascar com o leiloeiro numa roda de viola. Pois papai é indie. E tem programa para todas as noites de terças e quintas: um bom leilão de gado, mesmo em período de seca.
Papai diz que a diferença entre assistir em casa e pessoalmente é a mesma entre futebol no estádio e no sofá. Eu é que não vou discordar. A infância alternando a marcação das cotações com goles de Fanta Uva não me permite pensar outra coisa. No futebol as torcidas brigam fora do estádio. No leilão roubaram a caminhonete do papai.
Uma coisa é roubar algo de alguém em algum lugar qualquer. Outra é roubar a caminhonete do papai em seu segundo lar. Ele sabia disso. E boa parte do tatersal também. Quando papai teve de ir embora mais cedo e o estacionamento tinha uma F250 a menos, não foi preciso mais de quinze minutos para que o leilão virasse feira e pelo menos dez outras caminhonetes saíssem cantando pneu em busca da de papai. Porque papai, tatersalmente falando, é homem de respeito. E, em Minas, com homem de respeito não se mexe.
A polícia de Unaí costuma comentar que é praticamente impossível encontrar alguém que fuja em direção à zona rural da cidade. O labirinto de estradas dentro das fazendas torna a missão quase impossível para as viaturas. O caso é que descobri que falta sangue nos olhos da polícia. Porque a partir do momento em que a possante Nissan do dono do tatersal entrou na busca, não foi preciso mais de trinta minutos para que os celulares começassem a tocar e todos partirem para o mesmo lugar.
Se estavam acostumados em festa na Tucaneiros, o host do dia era papai. O ladrão, pobre diabo, tinha parado para pensar em uma fuga, mas ainda estava em sua área. Pior de tudo, sozinho. E papai nem precisou estar armado para tirar aquela sujeira de dentro da sua caminhonete e, dou-lhe uma, dou-lhe duas, convencê-lo de uma forma nada blasé de que seria melhor ele nunca mais voltasse a pisar em Unaí. Afinal, não é o fato de papai ser indie que tira o poder de suas ofertas irrecusáveis.
22.4.09
Pamonha!
Lembro-me como se fosse amanhã quando a família se reuniu na casa de vovó num dia qualquer de 1992 para aproveitar a temporada de milho e unir todos os credos daquele pessoal em torno de uma só razão: a pamonha. O puro creme do milho verde. Quente, fresco e caseiro. E com gosto da tardinha de sexta-feira correndo no alpendre da casa de vovó. Afinal, nada mais mineiro que família grande, adultos fazendo pamonha, crianças correndo no alpendre e uma ou outra com aquela tal de idéia de jerico pra tentar implodir todo o plano-sequência planejado pela vovó.
Pois, naquele dia fatídico, deixei de lado minha missão narrativa para me concentrar em um confronto individual com o Lucas. Ele pisou no meu pé. Eu chutei o joelho dele. Que puxou meu cabelo. E teve sua orelha mordida. E se aproveitou disso pra tentar me enforcar e conseguir pelo menos sufocar meu grito por qualquer uma das mulheres da família que nem estavam assim tão longe mas ainda assim não ouviam nada. Mas ufa. A bandeira branca da trégua valia pela batalha, não pela guerra.
Porque toda criança de dois ou três anos sabe que a verdadeira guerra é pela atenção dos adultos. A relação entre os outros pirralhos não importa muito se a vovó corre pra acudir pouco antes da panela de água fervente cair em cima de você. E para recuperar o terreno provando a superioridade, a carta na manga era melhor que um Coringa qualquer: o Batman.
E enquanto as mulheres separavam e empilhavam e enchiam e amarravam e ferviam as palhas cheias daquele creme de milho, o espírito de super-herói fez nosso pequeno anti-herói se desvencilhar do Lucas e pular no sofá para alcançar aquela janela que, vista do alpendre, era maior do que qualquer um dos tios da família. Do alto daqueles dois metros, uns cabelinhos meio loiros gritaram "Eu sou o Batman!" ao mesmo tempo em que o vento os consumia e mamãe e vovó só não corriam em sua direção mais rápido do que o próprio piso do alpendre.
Papai garantiu que o protótipo de Batman era mais pamonha do que o milho que cozinhava na panela em mais uma das sextas-feiras quaisquer de colheita. Com razão. Só no filme de 2005 é que resolveram fazer com que o Bruce Wayne voasse. Até lá, a queda era garantida. Esperta era mamãe, que aconselhou seu pequeno a se identificar como Clark Kent no próximo salto.
Pois, naquele dia fatídico, deixei de lado minha missão narrativa para me concentrar em um confronto individual com o Lucas. Ele pisou no meu pé. Eu chutei o joelho dele. Que puxou meu cabelo. E teve sua orelha mordida. E se aproveitou disso pra tentar me enforcar e conseguir pelo menos sufocar meu grito por qualquer uma das mulheres da família que nem estavam assim tão longe mas ainda assim não ouviam nada. Mas ufa. A bandeira branca da trégua valia pela batalha, não pela guerra.
Porque toda criança de dois ou três anos sabe que a verdadeira guerra é pela atenção dos adultos. A relação entre os outros pirralhos não importa muito se a vovó corre pra acudir pouco antes da panela de água fervente cair em cima de você. E para recuperar o terreno provando a superioridade, a carta na manga era melhor que um Coringa qualquer: o Batman.
E enquanto as mulheres separavam e empilhavam e enchiam e amarravam e ferviam as palhas cheias daquele creme de milho, o espírito de super-herói fez nosso pequeno anti-herói se desvencilhar do Lucas e pular no sofá para alcançar aquela janela que, vista do alpendre, era maior do que qualquer um dos tios da família. Do alto daqueles dois metros, uns cabelinhos meio loiros gritaram "Eu sou o Batman!" ao mesmo tempo em que o vento os consumia e mamãe e vovó só não corriam em sua direção mais rápido do que o próprio piso do alpendre.
Papai garantiu que o protótipo de Batman era mais pamonha do que o milho que cozinhava na panela em mais uma das sextas-feiras quaisquer de colheita. Com razão. Só no filme de 2005 é que resolveram fazer com que o Bruce Wayne voasse. Até lá, a queda era garantida. Esperta era mamãe, que aconselhou seu pequeno a se identificar como Clark Kent no próximo salto.
18.4.09
A verdadeira Brasília
Brasília é uma capital triste. Cidade de tanta gente só. De obviedade derramada no semiárido.
Passava pouco das dez da noite, quando decidi por um sanduíche para alimentar o sábado. Numa comercial não muito movimentada da Asa Norte, todas as seis mesas estavam ocupadas. Três por pessoas sozinhas e três por mais de uma pessoa desacompanhada. Solteiras ou não, solitárias. Porque Brasília é uma cidade estranha, veja bem. Teve as chances de ser um ode à sociabilidade, graças à imigração interminável e impiedosa que ainda lhe lota. Ilusão.
Tem propriedade para falar disso quem provou sua independência atravessando um dia sete com quarenta graus sobre os lençóis e por cinco dias seguidos vomitou a alma junto de seu ego. Porque o ego é a melhor fuga para pessoas solitárias, por se basear no orgulho próprio e em tentativas de encontrar a si mesmo na admiração alheia: a felicidade é secundária quando a sociedade aprova a tristeza. A mesma sociedade utópica criada por uma cidade-ilusão.
O exílio não saiu de moda onde caiu o militarismo e se enraizou a democracia. Mas ninguém é mandado para o exílio em Brasília por algum inimigo. É como mandar uma carta a si mesmo pelo correio, na verdade. O autoexílio na capital se tornou tão comum que parece surreal a visão de pessoas realmente felizes. Como as que cantavam parabéns a plenos pulmões no bar do bloco ao lado. Mas, em Brasília, você ignora essa mesa e fixa o olhar na criança atirada à grama com cara de poucos amigos depois de ter colocado o dedo no bolo antes da hora.
Normal em qualquer outro lugar, o garoto ganha em Brasília um misticismo incomum e ares de cartão postal. Então esqueça a catedral, o congresso, a ponte JK. Pense num garotinho loiro de sete anos tostado pelo sol e com jeans surrados. Se algum dia vier a Brasília, mande isso a seus amigos. A verdadeira Brasília.
Passava pouco das dez da noite, quando decidi por um sanduíche para alimentar o sábado. Numa comercial não muito movimentada da Asa Norte, todas as seis mesas estavam ocupadas. Três por pessoas sozinhas e três por mais de uma pessoa desacompanhada. Solteiras ou não, solitárias. Porque Brasília é uma cidade estranha, veja bem. Teve as chances de ser um ode à sociabilidade, graças à imigração interminável e impiedosa que ainda lhe lota. Ilusão.
Tem propriedade para falar disso quem provou sua independência atravessando um dia sete com quarenta graus sobre os lençóis e por cinco dias seguidos vomitou a alma junto de seu ego. Porque o ego é a melhor fuga para pessoas solitárias, por se basear no orgulho próprio e em tentativas de encontrar a si mesmo na admiração alheia: a felicidade é secundária quando a sociedade aprova a tristeza. A mesma sociedade utópica criada por uma cidade-ilusão.
O exílio não saiu de moda onde caiu o militarismo e se enraizou a democracia. Mas ninguém é mandado para o exílio em Brasília por algum inimigo. É como mandar uma carta a si mesmo pelo correio, na verdade. O autoexílio na capital se tornou tão comum que parece surreal a visão de pessoas realmente felizes. Como as que cantavam parabéns a plenos pulmões no bar do bloco ao lado. Mas, em Brasília, você ignora essa mesa e fixa o olhar na criança atirada à grama com cara de poucos amigos depois de ter colocado o dedo no bolo antes da hora.
Normal em qualquer outro lugar, o garoto ganha em Brasília um misticismo incomum e ares de cartão postal. Então esqueça a catedral, o congresso, a ponte JK. Pense num garotinho loiro de sete anos tostado pelo sol e com jeans surrados. Se algum dia vier a Brasília, mande isso a seus amigos. A verdadeira Brasília.
13.4.09
Pedro pedreiro pela paz
Pedro pedreiro decidiu encontrar a paz
De universal a cristão, indo de bar em bar
Às voltas com os problemas que a cerveja traz
Umas vezes com a bíblia, outras no bilhar
Na saideira prometeu
"Salvador daqui sou eu"
Logo de cara decidiu "vou pra Israel
Problema tá lá, diz o Jornal Nacional
Propaganda diz que é só assinar uns papel
Fátima acha que é questão de bem contra o mal"
Pedro assim entrou na ONG
Sofrimento que se alongue
Pedreiro penseiro que ia esperar o trem
Esperando a ficha, esperando as intenções
Esperando o sol, esperando lá quem vem
Pra salvar de guerrilhas, enchentes, moções
Pobre diabo achou legal
Do bairro agora era o tal
Subiu num ônibus que levava ao Galeão
Quarenta e quatro horas embaixo de sol quente
Pra altitude de La Paz o primeiro avião
Na mala só caneta, cueca, escova e pente
A seu lado o observava
Uma infeliz iugoslava
"Em busca da paz me mandaram viajar
Todos felizes agora é questão de tempo
Na cordilheira ou numa calota polar
Pela nossa ONG encontrarão seu sustento"
A balcânica então riu
"Meu Deus, primeiro de abril!"
Pelas ruas de La Paz viu manifestações
Mas com os nativos não resolvia só no grito
Percebeu que lhe faltavam reais instruções
Agora só tinha mesmo a Santo Expedito
"Valha-me, paizinho meu!
Vê em que Pedro se meteu"
Ivana foi-se preparar para o socorro
Tolo era o homem, mas o coração era bom
Não precisava desse louco mato-ou-morro
Juntos poderiam se sentir num mesmo tom
Destino então era Belgrado
Sorte agora havia virado
Vida na Sérvia voltou ao tijolo-e-cimento
Paz era fácil de encontrar dentro de dois
À bondade o pedreiro estava agora atento
Primeiro o próprio, o restante vinha depois
No sossego surgia a calma
Que sua alma não mais espalma
De universal a cristão, indo de bar em bar
Às voltas com os problemas que a cerveja traz
Umas vezes com a bíblia, outras no bilhar
Na saideira prometeu
"Salvador daqui sou eu"
Logo de cara decidiu "vou pra Israel
Problema tá lá, diz o Jornal Nacional
Propaganda diz que é só assinar uns papel
Fátima acha que é questão de bem contra o mal"
Pedro assim entrou na ONG
Sofrimento que se alongue
Pedreiro penseiro que ia esperar o trem
Esperando a ficha, esperando as intenções
Esperando o sol, esperando lá quem vem
Pra salvar de guerrilhas, enchentes, moções
Pobre diabo achou legal
Do bairro agora era o tal
Subiu num ônibus que levava ao Galeão
Quarenta e quatro horas embaixo de sol quente
Pra altitude de La Paz o primeiro avião
Na mala só caneta, cueca, escova e pente
A seu lado o observava
Uma infeliz iugoslava
"Em busca da paz me mandaram viajar
Todos felizes agora é questão de tempo
Na cordilheira ou numa calota polar
Pela nossa ONG encontrarão seu sustento"
A balcânica então riu
"Meu Deus, primeiro de abril!"
Pelas ruas de La Paz viu manifestações
Mas com os nativos não resolvia só no grito
Percebeu que lhe faltavam reais instruções
Agora só tinha mesmo a Santo Expedito
"Valha-me, paizinho meu!
Vê em que Pedro se meteu"
Ivana foi-se preparar para o socorro
Tolo era o homem, mas o coração era bom
Não precisava desse louco mato-ou-morro
Juntos poderiam se sentir num mesmo tom
Destino então era Belgrado
Sorte agora havia virado
Vida na Sérvia voltou ao tijolo-e-cimento
Paz era fácil de encontrar dentro de dois
À bondade o pedreiro estava agora atento
Primeiro o próprio, o restante vinha depois
No sossego surgia a calma
Que sua alma não mais espalma
7.4.09
Estrondo verde
Nem todo latino fala espanhol e nem todo extraterrestre é marciano. A bandeira da causa jupiteriana voltou a tremular na semana que antecede as comemorações do sexagésimo aniversário – pouco mais de sete séculos terrestres – do habitante mais popular daquele planeta. Na ressaca da festa de 80 anos de Hebe Camargo, o verde tomou as páginas das revistas de celebridades com o retorno de Etezinho Verde das Antenas Longas à Terra, um "divórcio" que estava prestes a alcançar seu centenário.
Dono dos mais marcantes olhos âmbares do sistema solar, desde sua primeira aparição em solo terrestre Etezinho Verde tornou-se a principal prova de vida extraterrena. E nunca aceitou desconfiança dos seres humanos. Afinal, como na frase que celebrizou, "pra sair voando em carrinho de supermercado, só mesmo ET de Hollywood. Com tudo o que temos passado com a Grande Mancha Vermelha, nos machuca a desconfiança dos terráqueos".
Nascido em Ganímedes, satélite de Júpiter, Etezinho Verde teve uma infância complicada. Com a transferência do pai para Saturno, jamais se adaptou àquela atmosfera repleta de hélio e só teve a saúde normalizada ao poder respirar todo o metano de seu planeta de origem. Ou não. Uma tempestade que parecia passageira ganhou nome duas décadas depois do início dos ventos de 500 km/h e a Grande Mancha Vermelha já está ativa há mais de 400 anos terrestres.
Boa parte da população do planeta foi devastada e o simpático Etezinho Verde se empenhou numa viagem para a desconhecida Terra na desesperada tentativa de sobrevivência. Sua chegada ajudou Galileu a comprovar a descoberta das luas de Júpiter, mas o alvoroço criado pelo tribunal do Santo Ofício fez com que o extraterrestre deixasse de dar suas contribuições para o conhecimento humano.
Ainda assim, Etezinho Verde das Antenas Longas continuou célebre com a ajuda de empresas que sempre souberam explorar sua popularidade: seja na linha autorizada de action-figures da Mattel ou na concorrida versão do Lego: Comando Espacial Júpiter. De volta à Terra, tem na agenda palestras motivacionais e encontros com importantes figuras políticas do cenário internacional. Além, claro, de algumas noites de autógrafos com as crianças que ajudaram a manter sua fama perene a tantos anos-luz de distância.
Dono dos mais marcantes olhos âmbares do sistema solar, desde sua primeira aparição em solo terrestre Etezinho Verde tornou-se a principal prova de vida extraterrena. E nunca aceitou desconfiança dos seres humanos. Afinal, como na frase que celebrizou, "pra sair voando em carrinho de supermercado, só mesmo ET de Hollywood. Com tudo o que temos passado com a Grande Mancha Vermelha, nos machuca a desconfiança dos terráqueos".
Nascido em Ganímedes, satélite de Júpiter, Etezinho Verde teve uma infância complicada. Com a transferência do pai para Saturno, jamais se adaptou àquela atmosfera repleta de hélio e só teve a saúde normalizada ao poder respirar todo o metano de seu planeta de origem. Ou não. Uma tempestade que parecia passageira ganhou nome duas décadas depois do início dos ventos de 500 km/h e a Grande Mancha Vermelha já está ativa há mais de 400 anos terrestres.
Boa parte da população do planeta foi devastada e o simpático Etezinho Verde se empenhou numa viagem para a desconhecida Terra na desesperada tentativa de sobrevivência. Sua chegada ajudou Galileu a comprovar a descoberta das luas de Júpiter, mas o alvoroço criado pelo tribunal do Santo Ofício fez com que o extraterrestre deixasse de dar suas contribuições para o conhecimento humano.
Ainda assim, Etezinho Verde das Antenas Longas continuou célebre com a ajuda de empresas que sempre souberam explorar sua popularidade: seja na linha autorizada de action-figures da Mattel ou na concorrida versão do Lego: Comando Espacial Júpiter. De volta à Terra, tem na agenda palestras motivacionais e encontros com importantes figuras políticas do cenário internacional. Além, claro, de algumas noites de autógrafos com as crianças que ajudaram a manter sua fama perene a tantos anos-luz de distância.
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