18.4.09

A verdadeira Brasília

Brasília é uma capital triste. Cidade de tanta gente só. De obviedade derramada no semiárido.

Passava pouco das dez da noite, quando decidi por um sanduíche para alimentar o sábado. Numa comercial não muito movimentada da Asa Norte, todas as seis mesas estavam ocupadas. Três por pessoas sozinhas e três por mais de uma pessoa desacompanhada. Solteiras ou não, solitárias. Porque Brasília é uma cidade estranha, veja bem. Teve as chances de ser um ode à sociabilidade, graças à imigração interminável e impiedosa que ainda lhe lota. Ilusão.

Tem propriedade para falar disso quem provou sua independência atravessando um dia sete com quarenta graus sobre os lençóis e por cinco dias seguidos vomitou a alma junto de seu ego. Porque o ego é a melhor fuga para pessoas solitárias, por se basear no orgulho próprio e em tentativas de encontrar a si mesmo na admiração alheia: a felicidade é secundária quando a sociedade aprova a tristeza. A mesma sociedade utópica criada por uma cidade-ilusão.

O exílio não saiu de moda onde caiu o militarismo e se enraizou a democracia. Mas ninguém é mandado para o exílio em Brasília por algum inimigo. É como mandar uma carta a si mesmo pelo correio, na verdade. O autoexílio na capital se tornou tão comum que parece surreal a visão de pessoas realmente felizes. Como as que cantavam parabéns a plenos pulmões no bar do bloco ao lado. Mas, em Brasília, você ignora essa mesa e fixa o olhar na criança atirada à grama com cara de poucos amigos depois de ter colocado o dedo no bolo antes da hora.

Normal em qualquer outro lugar, o garoto ganha em Brasília um misticismo incomum e ares de cartão postal. Então esqueça a catedral, o congresso, a ponte JK. Pense num garotinho loiro de sete anos tostado pelo sol e com jeans surrados. Se algum dia vier a Brasília, mande isso a seus amigos. A verdadeira Brasília.

Um comentário:

Clara Campoli disse...

Eu gosto muito desse texto. MUITO.